betoMais um relato de nosso intrépido escalador viajante Betão, desta vez em tierras arrrentinas.

Em mais um relato da série ‘muita escalada e pouco grau’, escrevo um pouco do que aconteceu na primeira parte da viagem que fizemos eu, Chris, Dani, Zé e Olivia pela Patagônia.

Primeiro de tudo tenho de destacar que é impressionante que 5 escaladores saiam de 3 estados diferentes e cheguem todos ao mesmo lugar na hora certa… foi que aconteceu. Eu e Chris chegamos um dia antes. 20 horas de voos e conexões, por que a gente é pobre e não consegue voo mais direto.

A cidade de Bariloche é linda. Confesso que eu sempre tive o preconceito de “a cidade de lua de mel”…  mas vale a pena. A cidade, na beira do lago Nahuel Huapi e cercada de picos nevados, tem clima de cidade de montanha. Como eu e Chris fomos os primeiros a chegar, aproveitamos esse primeiro dia para irmos ao clube andino, tomar vinho, comer bife de chorizo e conhecer a cidade enquanto a galera chegava.

A escalada esportiva é de aventura e a de aventura é aventura mesmo.

No dia seguinte, fomos cedo pegar os dois carros que havíamos alugado para a turma e pé na estrada para Piedra Parada.

A viagem em si é curiosa. A estrada é mais ou menos sinalizada e não coincide com os mapas, pelo menos os que tínhamos. Paramos em El Bonson para comprar a comida dos próximos 8 dias. Tudo tranquilo. A única discussão que houve foi sobre a quantidade de rolos de papel higiênico que uma integrante da banda queria comprar 16 rolos, enquanto os integrantes (gênero masculino) queriam comprar 6 (um para cada e um reserva). No fim, comprou-se 8. Para evitar confusão.P1070423

A aproximação à pedra parada é uma aproximação a outro planeta. Aliás, justo quando chega em Marte você vira a esquerda, atravessa uma ponte e está em frente à Buitrera. O impressionante cânion, tem esse nome pelos ninhos de condores, e a Piedra Parada (pedra em pé, na tradução livre do autor) é a sentinela.

O cânion tem potencial quase infinito mas ainda precisa de trabalho. Algumas das melhores paredes ainda não têm vias (ficávamos brincando: “se o Fei estivesse aqui, essa parede estaria furada”… ou: a galera da Petzl foi burra, tinham que ter trazido o pessoal do Montis aqui, ia ter muito mais via”). Mas não há dúvida que o visual é impressionante e a escalada é complementada pelo astral do lugar: deserto patagônico. Muito vento, calor de dia, frio de rachar à noite, umidade baixa, lebres correndo por todos os lados, um aviso de cuidado com o puma, uma chinchila dormindo do lado da parada da via há 20 metros de altura, uma casa a cada 8 km… Em fim, é muito interessante. Capacete é obrigatório, a escalada esportiva é de aventura e a de aventura é P1070219aventura mesmo.

Uma questão aparte que gostaria de colocar para discussão é que qualquer escalador de qualquer lugar que nos encontrava na pedra parada e sabia que éramos brasileiros, olhava para nós e ficava falando “muito bom”. Assim, galera da escalada, a próxima vez que aparecerem em um filme: falem mais coisa…

Fizemos uma memorável escalada na Piedra Parada em que o Dani conquistou uma via nova e cortou as duas cordas criando uma chuva de meteoros. Também escalamos em vários setores (ortiga, alero, calavera, éden, cañon de las sombras e chorro negro) da Buitrera. Cada um no seu ritmo… eu e Chris mais para a terceira idade e Zé, Dani e Olivia mais frenéticos. Em alguns desses setores, escalamos em companhia das mineiras andarilhas (Claudia e Helia) que foram adotadas.

Mas sem dúvida, a melhor coisa de Piedra Parada é a família Moncada: Don Mario, Señora Mirta y Leandrón. Tivemos o privilégio sermos convidados a compartilhar com eles a passagem de ano. Ele fez um assado de bode (embora o Zé Ricardo, el matador, diga até hoje que era carneiro). E nós? Fizemos o que fazemos melhor: a farra. Teve quadrilha, dança das cadeiras, vinho e muitas risadas.

É isso… outra hora eu tento escrever sobre como foi a segunda parte da viagem: Frey e Bariloche.

(esse post foi escrito em decorrência do choro do último editor remanescente da No Dab que está tentando com vontade ressuscitar o blog: força na careca titio!)

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